terça-feira, 18 de agosto de 2009

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Eric Novello entrevista Ademir Pascale


ENTREVISTA:

Eric Novello: Como foi sua entrada no mundo da literatura?

Ademir Pascale
: Desde muito cedo. Lembro perfeitamente quando meu pai (in memoriam) contava seus incríveis “causos”, a maioria passados no estado de Minas Gerais, sua terra natal. Suas histórias sobre lobisomens, fantasmas, caboclos d’água e sereias eram tão perfeitas e reais, que até hoje não saberia dizer se foram criadas ou realmente vivenciadas por ele. Minha mãe (in memoriam) me estimulou ao mundo das ilustrações, e até pouco tempo atrás, tinha guardado comigo alguns papéis com desenhos de quando eu tinha 3 anos de idade. Não eram simples rabiscos; algo convencional para uma criança naquela idade, mas desenhos legíveis, com olhos, boca, nariz, corpo, etc. Com 5 anos de idade, já tinha uma coleção razoável de HQ’s da Disney e Maurício de Souza. Um pouco mais tarde, influenciado por meu irmão, passei a gostar também dos Heróis da TV, Conan, MAD, etc. Sempre tive destaque no colégio com os meus contos. Lembro até hoje que, na 6ª série, minha professora de português gostou tanto do meu conto “Mar de Sangue” que me fez timidamente lê-lo em frente aos colegas de sala. Após a leitura, ela me perguntou se eu tinha vindo de outro colégio ou se tinha feito algum curso de criação literária. Eu disse que não, que estudava lá desde a 1ª série e que nunca tinha participado de algum curso de criação literária. Ela não acreditou muito, assim mesmo ganhei um 10. Mas, o ápice mesmo, pelo menos até o momento, ocorreu recentemente em 2008, quando passei a divulgar e publicar meus contos em antologias e na própria internet.

Eric Novello
: Dentro da literatura fantástica, quais escritores influenciam o seu trabalho?

Ademir Pascale
: Acredito que a maioria dos escritores deste gênero vão dizer Monteiro Lobato. Gosto do Lobato, mas prefiro Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos (um gênio) e Cecília Meireles. Gosto muito da literatura estrangeira, destacando a inglesa, e cito Robert Louis Stevenson, Mary Shelley, Oscar Wilde e principalmente Edgar Allan Poe. Gosto também de outros gêneros, para espanto de quem pensa que gosto apenas do horror e FC. Cito: Jane Austen, Charles Dickens, James Joyce, William Faulkner (Destaque: Uma rosa para Emily), irmãs Brontë (Charlotte, Anne e Emily), Ernest Hemingway (Destaque: O velho e o mar) e Katherine Mansfield (Destaque: Felicidade ‘Bliss’). Já os contemporâneos, destaco Umberto Eco, o amigo André Carneiro (infelizmente, um autor mais conhecido e enaltecido no exterior do que no próprio Brasil), Roberto de Sousa Causo; escritor forte, sério, inteligente e criativo. Como pode notar, é uma mistura de gêneros e influências e, para não citar nomes, mente quem diz não ser influenciado.

Eric Novello: E no que se convencionou chamar de literatura mainstream?

Ademir Pascale
: No meu ver, algo muito usado, para não dizer repetido ou batido, mas que faz sucesso. Não chega a ser chato, pois quem gosta do estilo (voz do autor), não se cansará de ler J. K. Rowling e suas milhares de páginas com Harry Potter, assim como as obras de André Vianco ou mesmo Roberto Shinyashiki, um outro gênero que faz muito sucesso, a auto-ajuda. Muitos se espelham nos principais autores de um determinado gênero e acabam levando a voz do autor para os seus textos, não gerando uma característica própria. Veja bem, ser influenciado é uma coisa, copiar o estilo é outra. Quantos autores que tentam ser semelhantes ao britânico J. R. R. Tolkien não vemos por aí?

Eric Novello
: Como vê a situação da literatura fantástica nacional dentro do mercado editorial?

Ademir Pascale: No quesito editoras comerciais, razoável. O que vejo são mais editoras prestadoras de serviços, ou seja, pagou publicou “e bem caro”. Algumas editoras estão trabalhando seriamente e estou vendo um bom crescimento em seus catálogos, com títulos inovadores e até apostando em novos autores, cito: Idea e Devir. Não generalizo as prestadoras de serviços, pois algumas que conheço (poucas) fazem um excelente trabalho de edição e divulgação. Recebo dezenas de contos e minicontos mensalmente para as antologias que estou organizando e para o zine TerrorZine: minicontos de terror. Leio excelentes textos de autores que não são conhecidos. Muitos se queixam que não conseguem publicar suas obras, e vejo que muitas editoras dão prioridade em ler originais de nomes já conhecidos no mercado, algumas vezes nem tão bons escritores, e acabam descartando excelentes escritores ainda sem nome, talvez pela quantidade reduzida de funcionários que trabalham na análise de originais. Gostaria muito de ver editores mais corajosos apostando em novos escritores, pois hoje, os leitores são muitos, bem diferente de 5 anos atrás. Para uma editora, o investimento é muito baixo na publicação de uma obra com 300 exemplares iniciais, e se realmente houver saída, uma boa vendagem, investir em mais exemplares seria o melhor caminho. Muitas erram e fazem uma tiragem inicial gigantesca, não fazem um bom trabalho de marketing e ainda esperam que o autor divulgue sua obra sozinho. O autor também tem que fazer a sua parte na divulgação, mas ambos devem trabalhar unidos.

Eric Novello: Qual o papel da Internet hoje na divulgação da literatura? Acha que os escritores estão sabendo explorar o seu potencial?

Ademir Pascale: Sem dúvida, importantíssima. Hoje, não conseguiria imaginar o mundo sem a internet. Os blogs são o melhor caminho para divulgação e treino de um escritor, além de que podemos ler bons textos gratuitamente. Veja que cerca de 90% do meu trabalho na literatura, é via internet, seja em envio e recebimento de textos, entrevistas ou troca de mensagens com escritores e editores (essa entrevista foi toda elaborada via internet...rs). O escritor que não usufruir desta tecnologia, com certeza ficará para trás.

Eric Novello: E a sua presença na Internet? Fale um pouco de contos online e do seu trabalho de divulgação em sites como o Cranik.

Ademir Pascale: Não sou do tipo “escritor metido” que publica um conto ou uma obra e já se acha uma estrela, e olha que já conheci muitos assim, mas hoje os evito e quero distância. Sei que o meu trabalho é muito importante na internet, afinal, já entrevistei mais de 110 pessoas, sendo a maioria escritores e cineastas. Muitos editores e jornalistas de conhecidas revistas e jornais entram em contato comigo constantemente solicitando o contato de alguns dos meus entrevistados, assim como auxílio em reportagens. O jornalista Roberto Cabrini me descobriu através do portal Cranik (www.cranik.com), e lembro que no dia que ele entrou em contato comigo, duas horas depois eu estava dando entrevista no Jornal da Noite na Bandeirantes. A mesma coisa aconteceu na Revista Istoé, Rádio USP, TV Uniban, diversos jornais, sites, etc. O Cranik se tornou uma excelente referência para a literatura e o cinema, mas nem tudo foi fácil: lembro que em meados de 2003, quando criei o Cranik e ainda não tinha muitas visitas, ninguém queria dar entrevista, principalmente para um cara desconhecido. Hoje, chego facilmente aos membros da Academia Brasileira de Letras, e já publiquei entrevistas que fiz com Moacyr Scliar e Antônio Carlos Secchin. Muitas editoras entram em contato comigo para entrevistar os seus autores, pois já sabem da importância do canal de comunicação que criei. Além do Cranik, mantenho o site Divulga Livros (www.divulgalivros.org) e O Entrevistador (www.oentrevistador.com.br) e agora estou também com o site Literatura Fantástica (www.literaturafantastica.com.br), todos com portas abertas para patrocínio e parcerias, principalmente com editoras. Como referência do meu trabalho, cito o Google (www.google.com.br), que apontará em sua busca, usando o meu nome entre aspas “Ademir Pascale” para cerca de 3.750 páginas.

Eric Novello: Você está com um romance em análise para futura edição. Poderia falar um pouco sobre ele?

Ademir Pascale: Exato, este romance é intitulado “O Desejo de Lilith: Revelações em um diário”. Estou procurando editoras, e tenho esperanças que será publicado em uma delas, principalmente em uma que fica localizada em Bauru, S. Paulo. Não posso revelar muitos detalhes do enredo, mas esta obra é do gênero suspense e horror. Recebeu leitura crítica de dois profissionais e passou pela revisão de uma das maiores revisoras do país, a Sra. Iolanda Moura. Como escritor, leitor voraz e autocrítico, tenho certeza absoluta do sucesso e vendagem desta obra.
Para instigar vocês leitores, o enredo de “O Desejo de Lilith” engloba algo mirabolante: o que teria em comum Vlade Tepes, Mary Shelley, Piercy B. Shelley, John Milton, Platão, Erzsébet Bathory, Thomas Chatterton, Robert Louis Stevenson, Phil Lynott, Kurt Cobain, Alister Crowley e Jim Morrison?
Uma das epígrafes desta obra: “Admirar-se-ia você de que tais pensamentos me levassem a assomos de ódio e fúria? Quanto a mim, o que me surpreende é não ter naquele momento, em lugar de perder-me em lamentações, dado vazão a meus instintos de perversidade e a meus impulsos de investir contra toda a humanidade e perecer na tentativa de aniquilá-la.” Mary Shelley, Frankenstein.

Eric Novello: Fale um pouco da antologia Draculea que está organizando. Por que acha que os vampiros são um tema tão atraente na literatura?

Ademir Pascale: E sempre foi, desde Bram Stoker. O medo, o perigo e a sensualidade em requintados contos vampirescos agem profundamente em nosso inconsciente. Veja que algo estrondoso e fraco, como “Crepúsculo”, faz um tremendo sucesso (não gostei de Crepúsculo), pois os leitores já associam o vampiro com o que citei logo acima. Como criador e organizador da antologia Draculea: O livro secreto dos vampiros, digo que é um projeto muito bem elaborado, partindo do estudo de Vlad Tepes (1431–1476) e a sua maldita consangüínea Erzsébet Bathory (1560-1614). Garanto que não será uma simples antologia com contos de vampiros, mas uma antologia com ótimos contos selecionados, destacando “o segredo”, algo que deixará os vampiros nervosos se revelado. Estou recebendo tantos contos, que já penso futuramente no Draculea II. O sucesso é inevitável... Para mais informações sobre como participar da antologia Draculea, acesse: www.cranik.com/draculea.html .

Eric Novello: Você também está organizando uma coletânea de ficção-científica, não? Poderia falar sobre ela?

Ademir Pascale: Exato, seu título é Invasão. O tema já nos remete ao conteúdo da obra, ou seja, o planeta Terra sendo invadido por seres hostis, no entanto, resolvi deixar algo mais amplo que a clássica obra A Guerra dos Mundos de H. G. Wells, assim as histórias inscritas poderão conter tanto enredos com alienígenas, como robôs, personagens de outras dimensões, viagens no tempo e espaço, insetos gigantes, etc., desde que seja relacionado com o tema principal: INVASÃO. A obra será publicada pela Giz, e pretendemos reunir os melhores 26 contos. Para mais informações: www.cranik.com/invasao_coletanea.html.

Eric Novello: Aproveitando o tema, o que acha das modalidades de edições pagas existentes atualmente? Todas são bom negócio ou é preciso estar atento?

Ademir Pascale: Não sou contra, mas é preciso estar atento. Para os autores iniciantes, principalmente, é uma boa investir em modalidades de edições pagas, destacando as antologias, que são excelentes meios de divulgação dos seus trabalhos. A leitura por muitas pessoas é inevitável, pois geralmente participa cerca de 30 escritores em cada antologia. Cada um destes escritores distribuirá a sua cota para amigos, parentes ou até mesmo através de vendas para leitores. Então cada conto dos 30 escritores será lido. Mas, devemos ficar atentos a qualidade da obra e até mesmo do material gráfico. Um excelente conteúdo não vende com uma péssima capa, e isso vejo aos montes. Oras, porquê não investir em bons capistas? O barato muitas vezes sai caro. O material também é importante, e recentemente, comprei um livro em um lançamento (FOME - Tibor Moricz) que, dois dias depois já estava com as folhas soltas. Fiquei com muita raiva.

Eric Novello: Depois de entrevistar tantos escritores, percebe algum ponto em comum em suas dificuldades ou opiniões sobre a literatura no Brasil?

Ademir Pascale: A maioria dos escritores que já publicaram, com certeza passaram por dificuldades, alguns mais que os outros. Todos perceberam que o índice de leitores subiu, e consecutivamente elevou-se as vendas. Grande parte dos que entrevistei, reclamam das exposições nas vitrinas das livrarias. Elas dão mais destaque para as obras internacionais, ou para as editoras que gastam mais em publicidade. Uma obra na frente de uma vitrina não significa que seja boa, mas que tem alguém por trás investindo nela. É claro que muitas valem a pena, mas encontro sempre as melhores obras escondidas, atrás de outros exemplares num lugar de difícil acesso, ou seja, quase no chão. Temos que nos agachar para encontrá-las, e muitos não fazem isso, pegam as que estão a altura das mãos. Existem outras dificuldades e algumas já citei nas outras respostas.

Eric Novello: Qual conselho deixaria para quem quer começar a investir em literatura, seja como escritor ou como divulgador?

Ademir Pascale: Ler muito e escrever igualmente. Todo escritor deve ter um site ou um blog. Deve escrever artigos para outros sites, jornais ou revistas. Tem que participar de antologias e nunca deve desistir, mesmo com os “nãos”, o que nos deve fortalecer ainda mais em nossa busca. Ajudar o próximo também é fundamental. Acredito na lei do retorno.

Perguntas rápidas:

Um livro de literatura fantástica: O Iluminado, Stephen King.
Um livro de mainstream: O Par: Uma novela amazônica, Roberto de Sousa Causo.
Um ator ou atriz: Anthony Hopkins e Judi Dench.
Um filme: O nome da rosa, dirigido por Jean-Jacques Annaud (baseado na excelente obra de Umberto Eco).
Trilha sonora perfeita para escrever: Iron Man e Psycho Man, ambas do Black Sabbath.
Um desejo: Poderia dizer ver a minha obra “O Desejo de Lilith” publicada, mas direi algo mais amplo: um dia em que não exista mais preconceito entre raças e poder aquisitivo. Um dia em que o nosso governo realmente coloque em 1° lugar a educação, cultura, moradia, saúde e uma boa distribuição de renda, deixando a esmola de lado. Um dia em que possamos acordar sem nos preocuparmos com a violência, assaltos, sequestros e guerras. É isso...

Eric Novello: Gostaria de encerrar com algum comentário?

Ademir Pascale: Eric, agradeço pela entrevista e excelentes perguntas. Como já disse, entrevistei mais de 110 pessoas, mas poucas vezes fui entrevistado. Me senti bem em expor minhas idéias, obrigado.
Para os leitores interessados em conhecer mais o meu trabalho, acessem: www.cranik.com, www.literaturafantastica.com.br, www.oentrevistador.com.br e www.divulgalivros.org.

Um forte abraço,

Ademir Pascale – ademir@cranik.com

Fonte: www.cranik.com

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quarta-feira, 5 de agosto de 2009